Seria
preciso, meus irmãos, para vos fazer compreender bem a estima que
devemos ter desta incomparável virtude, para vos fazer a descrição de
sua beleza, e vos fazer apreciar bem seu valor junto de Deus, seria
preciso, não um homem mortal, mas um anjo do céu. Ouvindo-o, vós diríeis
com admiração: Como todos os homens não estão dispostos a sacrificar
tudo antes que perder uma virtude que nos une de uma maneira íntima com
Deus? Procuremos, contudo, conceber dela alguma coisa, considerando que
dita virtude vem do céu, que ela faz descer Jesus Cristo sobre a terra, e
que eleva o homem até o céu, pela semelhança que ela dá com os anjos, e
com o próprio Jesus Cristo. Dizei-me, meus irmãos, de acordo com isto,
acaso não merece ela o título de preciosa virtude? Não é ela digna de
toda nossa estima e de todos os sacrifícios necessários para
conservá-la? Nos dizemos que a pureza vem do céu, porque só havia o
próprio Jesus Cristo que fosse capaz de no-la ensinar e nos fazer sentir
todo o seu valor. Ele nos deixou o exemplo prodigioso da estima que
teve desta virtude. Tendo resolvido na grandeza de sua misericórdia,
resgatar o mundo, Ele tomou um corpo mortal como o nosso; mas Ele quis
escolher uma Virgem por Mãe. Quem foi esta incomparável criatura, meus
irmãos? Foi Maria, a mais pura entre todas e por uma graça que não foi
concedida a ninguém mais, foi isenta do pecado original. Ela consagrou
sua virgindade ao Bom Deus desde a idade de três anos, e oferecendo-lhe
seu corpo, sua alma, ela lhe fez o sacrifício mais santo, o mais puro e o
mais agradável que Deus jamais recebeu de uma criatura sobre a terra.
Ela manteve este sacrifício por uma fidelidade inviolável em guardar sua
pureza e em evitar tudo aquilo que pudesse mesmo de leve empanar seu
brilho. Nós vemos que a Virgem Santa fazia tanto caso desta virtude, que
Ela não queria consentir em ser Mãe de Deus antes que o anjo lhe
tivesse assegurado que Ela não a perderia. Mas, tendo lhe dito o anjo
que, tornando-se Mãe de Deus, bem longe de perder ou empanar sua pureza
de que Ela fazia tanta estima, Ela seria ainda mais pura e mais
agradável a Deus, consentiu então de bom grado, a fim de dar um novo
brilho a esta pureza virginal. Nós vemos ainda que Jesus Cristo escolhe
um pai nutrício que era pobre, é verdade; mas ele quis que sua pureza
estivesse por sobre a de todas as outras criaturas, exceto a Virgem
Santa. Dentre seus discípulos, Ele distingue um, a quem Ele testemunhou
uma amizade e uma confiança singulares, a quem Ele fez participante de
seus maiores segredos, mas Ele toma o mais puro de todos, e que estava
consagrado a Deus desde sua juventude.
Santo Ambrósio nos diz que
a pureza nos eleva até o céu e nos faz deixar a terra, enquanto é
possível a uma criatura deixá-la. Ela nos eleva por sobre a criatura
corrompida e, por seus sentimentos e seus desejos, ela nos faz viver da
mesma vida dos anjos. Segundo São João Crisóstomo, a castidade duma alma
é de um preço aos olhos de Deus maior que a dos anjos, pois que os
cristãos só podem adquirir esta virtude pelos combates, enquanto que os
anjos a têm por natureza. Os anjos não têm nada a combater para
conservá-la, enquanto que um cristão é obrigado a fazer uma guerra
contínua a si mesmo. S. Cipriano acrescenta que, não somente a castidade
nos torna semelhantes aos anjos, mas nos dá ainda um caráter de
semelhança com o próprio Jesus Cristo. Sim, nos diz este grande santo,
uma alma casta é uma imagem viva de Deus sobre a terra.
Quanto
mais uma alma se desapega de si mesma pela resistência às suas paixões,
mais ela se une a Deus; e, por um feliz retorno, mais o bom Deus se une a
ela; ele a olha, Ele a considera com sua esposa, como sua bem-amada;
faz dela o objeto de suas mais caras complacências, e fixa nela sua
morada para sempre. “Bem-aventurados, nos diz o Salvador, os puros de
coração, porque eles verão ao bom Deus”. Segundo S. Basílio, se
encontramos a castidade numa alma, encontramos aí todas as outras
virtudes cristãs, ela as praticará com uma grande facilidade, “porque” -
nos diz ele – “para ser casto é preciso se impor muitos sacrifícios e
fazer-se uma grande violência. Mas uma vez que alcançou tais vitórias
sobre o demônio, a carne e o sangue, todo o resto lhe custa muito pouco,
pois uma alma que subjuga com autoridade a este corpo sensual, vence
facilmente todos os obstáculos que encontra no caminho da virtude”.
Vemos também, meus irmãos, que os cristãos castos são os mais perfeitos.
Nós os vemos reservados em suas palavras, modestos em todos os seus
passos, sóbrios em suas refeições, respeitosos no lugar santo e
edificantes em toda sua conduta. Sto. Agostinho compara aqueles que têm a
grande alegria de conservar seu coração puro, aos lírios que se elevam
diretamente ao céu e que difundem em seu redor um odor muito agradável;
só a vista deles nos faz pensar naquela preciosa virtude. Assim a Virgem
Santa inspirava a pureza a todos aqueles que a olhavam...
Bem-aventurada virtude, meus irmãos, que nos põe entre os anjos, que
parece mesmo elevar-nos por sobre eles!
-Fragmento do Sermão sobre a pureza de São João Maria Vianey
Nenhum comentário:
Postar um comentário